Celebrando a vida

por Andreza Tagliatti

Eu tenho várias manias. Mas eu tenho uma mania específica pós-viagens. Um ritual ou talvez um TOC (transtorno obsessivo-compulsivo). Antes de guardar as malas, passo aspirador dentro delas. Utilizo um desses modelos portáteis, sabe? Talvez você não conheça. E talvez isso seja a coisa mais estranha que você lido nos últimos anos. A-louca-do-aspirador-da-mala. Ela existe. Sou eu. 

Recomendo. Terra, areia, confetes, serpentina, glitter, farelo, folhas secas, galhos, pedrinhas, conchinhas. Adoro aquele estalo no aspirador, um barulho meio crocante que parece me dizer “fique tranquila, vou deixar sua mala bem limpinha”. Que delícia. Além do prazer da limpeza, esse processo me faz relembrar os momentos de cada viagem - divertidos, emocionantes, tensos, perigosos, surpreendentes, enriquecedores, intensos, reveladores etc.

Ao voltar do último réveillon (sem praia, sem conchinhas, sem areia, sem glitter – ufa!), comecei meu ritual. Enquanto desfazia a mala, refletia sobre os dias de atividades intensas no Chakra do Coração. E concluí - eu voltei com um coração repleto de imensidões. Isso. No plural mesmo – imensidões.

A primeira imensidão é a Natureza – em seu estado pleno de contentamento, ela cerca o Chakra de forma generosa e espetacular. Árvores, lago, flores, plantas, ervas, bichos. Cores, sons, aromas, terra, água, luz. Todos em sintonia. Em harmonia. Como uma coreografia. Como uma pintura. Como um concerto. Uma orquestra.

A música. Outra imensidão. Transforma pessoas e ambientes. Conecta e reconecta. E foi assim no Chakra do Coração. Desde o início até o final das atividades, fomos presenteados com ela ao longo dos cinco dias. Nos momentos de lazer, repertórios mais clássicos se revezavam entre piano e violões. Nos rituais e nas práticas, era a vez dos mantras, dos kirtans, das músicas sagradas. Quanta sensibilidade, beleza e entrega. Que privilégio poder (e querer) estar ali.

E eu usarei a palavra entrega também para outra imensidão do Chakra do Coração – a culinária. Quanta inspiração. Quanta dedicação. Quanto amor. Comida que cura. Cozinheiras-artistas. Alquimistas. Malabaristas. Café da Manhã. Almoço. Lanche da tarde. Jantar. Era unânime. Em cada canto do Chakra, só elogios que me fizeram lembrar uma figura de linguagem das aulas de português chamada onomatopeia – hummmmm, que delícia. Hummmm, muito bom.

Mas qual era a ideia de passar o reveillon no Chakra, mesmo? Respirar, refletir, repensar, rever, renascer. E o mais importante: a ideia era não ter ideia. Bastava apenas estarmos abertos e flexíveis para o que viesse nas inúmeras práticas e atividades – ora profundas, ora leves, ora emocionantes, ora divertidas, e curativas. E importantíssimo - munidos da escuta generosa, da atenção plena, da entrega, da compreensão, da aceitação e do respeito. Os facilitadores de meditação escolhidos pelo Chakra foram essenciais nesse processo e nos deixaram extremamente seguros e confortáveis. Conduziram as meditações com muita sensibilidade, muita delicadeza, muito profissionalismo e respeitando o limite de cada um. 

E, vamos combinar, “cada um” é muita gente, né? São multiuniversos (ou multiversos). Outras imensidões. Dimensões. Conexões. Um desafio e tanto para os queridos profissionais que nos acolheram e nos ajudaram nas práticas meditativas de expansão da consciência. Foi um entendimento mútuo. Compartilhado, genuíno e honesto. Trabalhamos cura, compaixão, perdão. Eles escutaram (e sentiram) nossas angústias, nossos medos, nossas frustrações, nossos traumas, nossos dissabores, nossos desamores. Um trabalho em equipe que nos permitiu identificar caminhos para jornadas difíceis e repletas de obstáculos – perdoar; vencer medos; desconstruir crenças; eliminar barreiras; lidar com nossos egos; não cair nas armadilhas das ilusões; observar-se; silenciar-se;

libertar-se.  

Sobre o Reveillon? Que noite. Música, magia, dança, cor, sabor, amor, conexão, vibração, união, leveza, compreensão, expansão, celebração.  E um pouco de silêncio para uma conversa franca e importantíssima com o fogo. Transmutação. Uma integrante do grupo até deixou uma parte de seu cabelo ali naquela fogueira. Um pedaço pequeno, num gesto lindo, grandioso, admirável e repleto de significados. Uau. Reverência, doação. Uau. Ancestralidade. Respeito a um elemento da natureza tão poderoso e tão transformador. Uau.

Na minha imensidão, fiz novos amigos; reencontrei irmãos de outras vidas; descobri bons parceiros de dança; fui deliciosamente abraçada e cuidada por todos. Na sessão de cinema, o documentário escolhido abordou questões profundas, mas a sensação era de férias de infância, quando reuníamos todos os primos da família para a dobradinha filme-pipoca – bastava estarmos numa sala, todos juntos, e estava tudo bem. E praticar Yoga no Chakra, ao lado desses novos primos, foi revigorante, principalmente as-quinze-mil-vezes-de-saudação-ao-Sol-que-não-terminavam-nunca-mais. 

Na minha imensidão, fui presenteada com um orb (foto). Pasmém. Eu tenho 42 anos e nunca tinha ouvido falar em orb (a explicação está na legenda da foto).  Ao tirar uma fotografia de uma das incríveis paisagens da natureza que cercam o Chakra do Coração e mostrá-la para Marcio e Ameeta (os donos do Chakra), eles identificaram meu novo amigo – lá estava ele, num verde lindão (foto).

Eu tenho outra mania. Cerca de 24 horas antes de voltar de qualquer viagem, começo um check-in mental. Repasso os itens que considero essenciais para o meu retorno. E aí sempre surge a pergunta - cadê as chaves de casa? Mas o período que passei no Chakra do Coração ressignificou os conceitos de “chave” e “casa”. Foi um diálogo interno entre mente e coração.

- Não posso esquecer de ver onde estão as chaves da minha casa.

- Mas que importância isso tem, se as chaves e a casa não estão lá fora? Elas estão aqui dentro.

Naquele momento, lembrei de uma frase de Carl Jung - “Sua visão se tornará mais clara somente quando você olhar para dentro do seu coração”. E a gente só olha para o coração quando a gente celebra a vida.

                                 

 

 

                                  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Legenda para a foto: ORBs são pequenas bolas de luz que não são detectadas a olho nu. Quando o orb tem cor, como laranja, verde e roxo, dizem que são os elementais da natureza. Elementais são habitantes do mundo invisível aos olhos humanos, que vivem num mundo e universo próprios, com suas leis, filosofia, objetivos e modo de vida totalmente particular. São como espíritos que possuem ligação direta com os elementos da natureza. Essas criaturas são, por isso, chamadas de espíritos da natureza, uma vez que elas vivem em contato permanente com a fauna e flora, as quais têm a missão de defender.

 

 

Agradecimentos mais que especiais:

Um lugar é feito de pessoas. O Chakra não teria essa energia, essa força, essa alegria se não fosse pelas pessoas que nos recebem com tanto carinho e nos dedicam cada segundo do seu precioso tempo. Talvez tenha esquecido de alguém, mas seguem meus agradecimentos, eterna gratidão por tanto aprendizado  – Ameeta Om, Marcio Sorge, meninas da cozinha (uma delas é a Cris, Sueli e Goreti) Marcelo Sorge, Nikole Góes, Leon Fontes, Celso Freithas.

 

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